SANTO ANTÔNIO

OH, SINO!

Oh, velho sino soluçando triste
Nos teus sentidos dobres de finados
Alguma coisa de humano existe
No teu planger, nos teus sentidos brados

Eu sinto que tens alma, pois, da torre
A tua voz se espalha e logo se conhece
Se estás chorando por alguém, que morre
Ou se oras do Ângelus a prece.

Quanta tristeza tenho, quando vais
Espalhando nos ares a oração
Que tens contida nos teus tristes ais.

Na minha alma, sino, sinto então
Que as tuas badaladas são iguais
As badaladas do meu coração.

O LIVRO DA MADRUGADA

As trevas do meu caminho
Vão sumindo no poente
Minha aurora sorridente
Desperta em leito de linho

Meu coração bate ardente
Cheio de amor e carinho
Embriagado com o vinho
Dos amores que já sente

Eu pressinto na alvorada
Perfumes de que a jornada
Deixará minh'alma plena

Minha musa será serena
E vou tanger a minha pena
No livro da madrugada.

O PARLAPATÃO LOQUAZ


BONEQUINHA DE LOUÇA

Como cândida garça que flutua
No horizonte sombrio de um açude
Como a pluma fugaz que ao vento rude
Traz beleza nas curvas que insinua

Passa sempre na minha triste rua
Aquela silhueta que me ilude
Ora é deusa quebrando a solitude
Ora sombra sutil à luz da Lua

Que delírio me causa essa paisagem
Quanto sonho desperta aquela imagem
Quando a vejo sorrir com tanta graça

Bonequinha de louça tão bonita
Não existe soneto que reflita
O que sinto no peito quando ela passa.