Hoje minh'alma despertou sorrindo!
Como era alegre a vida! Todavia
Nada de novo trouxera-me este dia
Embora tudo parecesse lindo
Por que este encanto? Por que esta alegria
A transbordar do coração florindo?
Teria sido o sofrimento findo?
Finda teria sido a nostalgia?
Ah, não! Meus dias seguirão tristonhos
Minh'alma apenas refletia os sonhos
Nos quais eu te beijei feliz, dormindo
Mas a esperança de quem ama é infinda
E na certeza de beijar-te ainda
Hoje minh'alma vai dormir sorrindo!
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ALGUM DIA
Tu terás nos teus olhos, algum dia
Novo brilho de amor e de esperança
Tu terás nos teus lábios de criança
A mais linda e sonora melodia
Eu verei, nos teus olhos, a confiança
A nobreza, o amor, a poesia
E os licores de luz e de magia
Beberei nos teus lábios de bonança
Olharás para mim... Dirás sorrindo
Que o amor é tão grande, que é tão lindo
Que é mais lindo que o céu, maior que o espaço...
Olharei para ti e, apaixonado
Vou falar-te de amores, inspirado
No bendito calor do teu abraço!
VEJO VOCÊ!
Quantas flores à beira do caminho!
Como exala perfume a madrugada!
Como é belo o cantar da passarada
Gorjeando as delícias do seu ninho
A alegria cintila na alvorada
Como hino de amor e de carinho
Nas montanhas o Sol vem de mansinho
Dar um beijo à rolinha despertada
Meu coração de amante vê na Terra
A beleza que a madrugada encerra
E eu sorrio contente como quê!
Nas campinas, eu vejo um só motivo:
Um sorriso, um olhar, um beijo esquivo
Um aperto de mão... Vejo você!
BUCÓLICA
Na face avessa desse Apocalipse
Aleluias aprestam-se ansiosas
Urdindo cânticos de apoteose
Na retomada edênica do Gênesis.
Já te vejo passeando pelos bosques
Do nosso amor, na terra prometida
Advinho teus passos nas campinas
Como quem busca um ninho, uma pousada.
Que chovam arco-íris dos teus seios
Inundando do leite colorido
Que coleia o cosmos suculento.
E quero ver-te rir cada manhã
Bolando truques, tecendo sonhos
Iluminando, assim, nossos caminhos.
OH, SINO!
Oh, velho sino soluçando triste
Nos teus sentidos dobres de finados
Alguma coisa de humano existe
No teu planger, nos teus sentidos brados
Eu sinto que tens alma, pois, da torre
Eu sinto que tens alma, pois, da torre
A tua voz se espalha e logo se conhece
Se estás chorando por alguém, que morre
Ou se oras do Ângelus a prece.
Ou se oras do Ângelus a prece.
Quanta tristeza tenho, quando vais
Espalhando nos ares a oração
Que tens contida nos teus tristes ais.
Espalhando nos ares a oração
Que tens contida nos teus tristes ais.
Na minha alma, sino, sinto então
Que as tuas badaladas são iguais
As badaladas do meu coração.
O LIVRO DA MADRUGADA
As trevas do meu caminho
Vão sumindo no poente
Minha aurora sorridente
Desperta em leito de linho
Meu coração bate ardente
Cheio de amor e carinho
Embriagado com o vinho
Dos amores que já sente
Eu pressinto na alvorada
Perfumes de que a jornada
Deixará minh'alma plena
Minha musa será serena
E vou tanger a minha pena
No livro da madrugada.
BONEQUINHA DE LOUÇA
Como cândida garça que flutua
No horizonte sombrio de um açude
Como a pluma fugaz que ao vento rude
Traz beleza nas curvas que insinua
Passa sempre na minha triste rua
Aquela silhueta que me ilude
Ora é deusa quebrando a solitude
Ora sombra sutil à luz da Lua
Que delírio me causa essa paisagem
Quanto sonho desperta aquela imagem
Quando a vejo sorrir com tanta graça
Bonequinha de louça tão bonita
Não existe soneto que reflita
O que sinto no peito quando ela passa.
PRANTO
Como é negro este céu! Vê como é baço!
Vê como é negra esta amplidão escura
Como é pesada a atmosfera impura
Como é tremenda a escuridão do espaço.
A natureza triste não murmura
Um som sequer, sequer o mais escasso
E no calor que sobe num mormasso
A alma da terra a luz do céu procura.
A chuva cai pesada e tristemente
Numa triste canção, canção dormente:
Que tristeza o poeta sente agora...
Quanta tristeza o poeta sente, quando
Vê no seu peito o coração chorando
Vê que, na Terra, a Natureza chora!
Vê como é negra esta amplidão escura
Como é pesada a atmosfera impura
Como é tremenda a escuridão do espaço.
A natureza triste não murmura
Um som sequer, sequer o mais escasso
E no calor que sobe num mormasso
A alma da terra a luz do céu procura.
A chuva cai pesada e tristemente
Numa triste canção, canção dormente:
Que tristeza o poeta sente agora...
Quanta tristeza o poeta sente, quando
Vê no seu peito o coração chorando
Vê que, na Terra, a Natureza chora!
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